sábado, 23 de março de 2013

Contos de Santiago

Cão
Faz frio nas ruas de Santiago, nesta manhã nebulosa. Apenas ouço os passos rápidos de pessoas indo para o trabalho. Passam por mim com rostos cansados e vazios, quase ainda imersos nos seus sonhos noturnos.

Alguns desviam de mim, pois não sigo o fluxo. Ando sem rumo, sem me distanciar de onde despertei, procuro sol e carinho. A comida a muito esqueci. Quando os dias passaram a fome se transformou em uma companheira de quarto, da qual não tive escolha. Por fim acabei por me acostumar com ela.

Vejo, em algum lugar qualquer, meu reflexo. Esse corpo não parece meu, pele e osso mostram um ser fraco. Encontro meu rosto e lembro-me dos seus traços, agora quase apagados. Ah os olhos! Carregam força e esperança. Finalmente me reconheço, esse do outro lado da poça d’água sou eu. Cachorro abandonado.

Coração
Habituado com o escuro e a solidão me tornei caloroso e acolhedor. Dançar, ou melhor, seguir o ritmo da música, é algo de grande prazer para mim. Não saio muito do lugar, mas sou contente com meu trabalho tão importante.

De vez em quando, como agora ao me despertar, sinto uma raiva incontrolável e bato no peito machucando-o. Sinto-me deslocado, não quero mais morar aqui. Afinal onde moro?

As coisas começam a se acalmar, mas parece que tudo encolheu, me sinto apertado nessa casa. Agito-me ao sentir uma pontada e a dor piora. Quero sair daqui, correr para longe até cansar. Quero te encontrar de novo.

Você me bagunçou, sabia? Perdi meu ritmo ao seguir o seu e passou a ser impossível voltar a ser como antes. Suas batidas fortes na minha porta não me deixaram escolhas a não ser abri-la e receber seu calor e luz. Porém, você saiu e a porta permanece aberta. Penso em sair e te buscar, mas como se sou apenas um coração arritmado?







Um comentário:

  1. Que teríamos nós de mais próprio do que o olhar? Nossa pele adquire rugas ou tatuagens, o cabelo cai ou muda a cor. Mas o olhar, ainda que mais feliz ou mais triste, permite que nele nos reconheçamos e que a partir dele os outros nos reconheçam. E fico imensamente feliz que se reconheceu justamente ao ver seus próprios olhos cheios de esperança e confiança.

    ...

    Você perdeu seu ritmo ou seu próprio ritmo simplesmente mudou com a presença de alguém, de forma que você ainda não reconheceu que essa mudança do ritmo não quer dizer que, por ter mudado, ele deixe de ser seu? E esse novo ritmo, continua indo contra o fluxo?

    Mais uma vez, parabéns pelo texto. Simples, expressivo e bonito.

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