A sereia a espreita não perdeu tempo e passou a cantar mais
alto, me seduzindo devagar com seu canto mais belo. Tomou, então, minha bússola
e mexeu em meu leme. Assim, ignorando quem era o verdadeiro capitão, continuei
minha viagem sem me preocupar com o destino.
Naveguei dia após dia e lado a lado com a sereia de cabelos
longos e ondulados. Finalmente senti seus lábios, que apesar de estarem gelados
e salgados os senti doces e quentes. Poseidon,
por sua vez, poupou-nos de tempestades, mas agora em meu íntimo as desejava, pois
somente elas poderiam me tirar desse estado hipnótico que me encontrava.
Ao sentir o balanço do barco por uma onda não muito grande
despertei de meu sonho. “Agora não há volta” pensei. Encontrava-me em uma
encosta de pedras e correntezas traiçoeiras que formavam um corredor medonho
onde se viam barcos naufragados em ruínas.
É desse momento que continuo a história, me encontro a
segundos antes de entrar nesse corredor sem volta. Recuo por um breve instante,
me sinto incapaz de enfrentá-lo. Lembro-me de outros dias, de minha terra, de
meus eternos amores. Puxo com força o ar úmido e frio e encho meus pulmões de
vida. Agarro o leme com firmeza, agora somos um só, eu e o barco. A sereia
assiste tudo de longe.

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