terça-feira, 19 de março de 2013

A sereia

 Os ventos finalmente estavam a meu favor. Estava avançando em direção à terra prometida, guiado pela bússola da precaução, até chegar ao Pacífico, onde icei as velas e baixei a guarda. A velocidade e o prazer do vento no rosto me distraíram  e, de fato, me tornei desatento à viagem (como todo marujo há de ficar) apenas aproveitando as novas brisas.

A sereia a espreita não perdeu tempo e passou a cantar mais alto, me seduzindo devagar com seu canto mais belo. Tomou, então, minha bússola e mexeu em meu leme. Assim, ignorando quem era o verdadeiro capitão, continuei minha viagem sem me preocupar com o destino.  

Naveguei dia após dia e lado a lado com a sereia de cabelos longos e ondulados. Finalmente senti seus lábios, que apesar de estarem gelados e salgados os senti doces e quentes.  Poseidon, por sua vez, poupou-nos de tempestades, mas agora em meu íntimo as desejava, pois somente elas poderiam me tirar desse estado hipnótico que me encontrava.

Ao sentir o balanço do barco por uma onda não muito grande despertei de meu sonho. “Agora não há volta” pensei. Encontrava-me em uma encosta de pedras e correntezas traiçoeiras que formavam um corredor medonho onde se viam barcos naufragados em ruínas.

É desse momento que continuo a história, me encontro a segundos antes de entrar nesse corredor sem volta. Recuo por um breve instante, me sinto incapaz de enfrentá-lo. Lembro-me de outros dias, de minha terra, de meus eternos amores. Puxo com força o ar úmido e frio e encho meus pulmões de vida. Agarro o leme com firmeza, agora somos um só, eu e o barco. A sereia assiste tudo de longe.





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