quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Triste Tereza


     Uma jovem entra em seu quarto com um olhar perdido e cansado. Deixa cair sua mochila no chão e deita na cama de qualquer jeito, sem vontades. Sua perna não fala com seu tronco e esse não se comunica com o pescoço que se esqueceu da cabeça, seu corpo não é um só, é só um monte de peças separadas que não se entendem. Sua roupa pesa no corpo, mas nem pensa em tirá-la, seu desânimo é tanto que até o acento circunflexo na palavra desânimo parece desnecessário e enfático demais. Quase tudo ao seu redor é um peso, um fardo, e por mais que estar deitada em vez de estar fazendo qualquer outra coisa seja algo “bom”, ela não se sente nem um pouco entusiasmada.
     Tereza se contorce preguiçosamente no colchão antes de fechar seus olhos castanhos e sonhar com o vazio. Na escuridão de uma tarde de sol ela permanece no quarto até a luz da noite romper seu sono. Seu íntimo deseja uma chuva intransponível nesse dia de sexta-feira para não permiti-la sair de casa. Porém não deseja ficar em casa, porque na realidade não deseja nada. Sua rotina sem sentido condena sua vontade de se entreter, não há sentido em se divertir, pois não há sentido no que faz. Tereza é estudante e por isso não faz propriamente algo como um trabalho, seu trabalho é apenas aceitar o que lhe falam e decorar.
     Levanta-se e vai ao banheiro a passos lentos, se olha no espelho e joga água na cara mais de uma vez tentando trazer vida a seu rosto morto. As gotas percorrem a curva de sua face suave e algumas pingam de sua franja. Passa a mão em seu cabelo castanho semi-curto e semi-liso e o deixa cair novamente tampando uma parte de sua triste beleza. Cada movimento de seu corpo e cada tarefa por ela desempenhada parecem tomar um tempo demasiado, seus pensamentos e devaneios a dominam constantemente. Sua estatura média e delgada a tornam de uma instigante atração.
     Agora parece caminhar de volta para o quarto com algo na mão, um vibrador. Deixa-se deitar na cama e se cobre com o cobertor. Liga-o, então, pois não pretende fazer esforços. De repente, antes que inicie o ritual solitário, começa a chorar. Não sabe o porquê, mas as lagrimas escorrem do seu rosto limpando o nada que a habita. Nesse momento algo nela muda, algo o qual ela não se dá conta. Desliga o objeto erótico e se levanta, resolve ir até a janela. Seu choro continua lentamente como um riacho tímido no sertão. Olha os carros e as pessoas passarem, admirando a noite urbana. O coração bate e ela o nota dando um longo suspiro.  Seu choro cessa.  

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