Uma jovem entra em seu quarto com
um olhar perdido e cansado. Deixa cair sua mochila no chão e deita na cama de
qualquer jeito, sem vontades. Sua perna não fala com seu tronco e esse não se
comunica com o pescoço que se esqueceu da cabeça, seu corpo não é um só, é só
um monte de peças separadas que não se entendem. Sua roupa pesa no corpo, mas
nem pensa em tirá-la, seu desânimo é tanto que até o acento circunflexo na palavra
desânimo parece desnecessário e enfático demais. Quase tudo ao seu redor é um
peso, um fardo, e por mais que estar deitada em vez de estar fazendo qualquer
outra coisa seja algo “bom”, ela não se sente nem um pouco entusiasmada.
Levanta-se e vai ao banheiro a passos
lentos, se olha no espelho e joga água na cara mais de uma vez tentando trazer
vida a seu rosto morto. As gotas percorrem a curva de sua face suave e algumas
pingam de sua franja. Passa a mão em seu cabelo castanho semi-curto e semi-liso
e o deixa cair novamente tampando uma parte de sua triste beleza. Cada
movimento de seu corpo e cada tarefa por ela desempenhada parecem tomar um
tempo demasiado, seus pensamentos e devaneios a dominam constantemente. Sua
estatura média e delgada a tornam de uma instigante atração.
Agora parece
caminhar de volta para o quarto com algo na mão, um vibrador. Deixa-se deitar na cama e se cobre
com o cobertor. Liga-o, então, pois não pretende fazer esforços. De repente,
antes que inicie o ritual solitário, começa a chorar. Não sabe o porquê, mas as
lagrimas escorrem do seu rosto limpando o nada que a habita. Nesse momento algo
nela muda, algo o qual ela não se dá conta. Desliga o objeto erótico e se
levanta, resolve ir até a janela. Seu choro continua lentamente como um riacho
tímido no sertão. Olha os carros e as pessoas passarem, admirando a noite urbana.
O coração bate e ela o nota dando um longo suspiro. Seu choro cessa.

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