terça-feira, 15 de abril de 2014

Na trilha do rio seco

Subo por uma trilha onde passa um rio em tempos de chuva. Agora é só pedra e barro. Sigo em ritmo forte, sem pensar, sem sentir. Quero o topo e nada menos. Tenho uma pedra no coração ou seria meu coração uma pedra? O rio não vem, é seca. A paisagem do cerrado é feia e torta como eu. Subo e continuo a subir, sozinho, só com minha pedra. A pedra pede o chão, mas não quero deixá-la aqui. Ela pede com muita vontade "eu quero cair"! "Não deixo! Você vem comigo até o topo". Ela me machuca, me puxa pra baixo.

Por que não consigo deixá-la aqui"? Dói. É uma dor funda, diferente da dor dos cortes sobre a pele, que sangram. Essa é uma dor que esvazia, te deixa mais fraco, mas também mais leve. Com frio , mas também sereno. Aquele não, aquela dor da pedra me deixa pesado, entupido de não sei o que. O choro transborda dessa dor, mas é um choro que não esvazia, só transborda. A pedra lá no fundo dói a cada batida do coração, a cada passo.

O rio seco e meus olhos cheios. Vou subindo contra duas forças. Com que força eu anulo a da pedra? É a morte ou a vida que me faz subir? A morte é leve e a vida pesada, por isso o que me faz subir é a força da morte. Subo então até o topo (07061990 metros). Cheguei na nascente. A pedra cai do meu coração, afinal ele não é só pedra. A água da nascente aparece, a pedra desce e eu desço para buscá-la.

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