quarta-feira, 29 de maio de 2013

a mor cego

   Na escuridão desse calabouço solitário, repousando contra a gravidade, reflito sobre minha pena. Estou condenado por fazer as mulheres me amarem. Crio personagens de contos de fadas, misteriosos, sedutores e elas preenchem as lacunas com a ilusão ingênua de um final feliz. Jogo o jogo do silêncio e faço promessas invisíveis para depois justificar minhas faltas e meus rompimentos dizendo que na verdade nunca existiram esses vínculos. Sugo o amor de outros com meus dentes afiados de mentiras e assim dor e prazer viram um só.

   Transformo-me em vampiro quando seus olhos aparecem pela pequena abertura da porta de ferro. Os encaro, mas não tenho reflexo no espelho do seu ser. Há um tempo você entrou no meu castelo sombrio para ser mais uma vítima, mas algo aconteceu. Sentimos algo místico e de vítima você passou a réu.  Juntos fomos até a torre mais alta e ali esquecemos do frio com o calor dos nossos corpos, até você me abandonar. Agora estou trancafiado nos seus olhos correntes, nos seus lábios grades, no seu corpo cárcere. Sou um morto-vivo bebendo e me afogando na sua saliva cuspida.

   Encontro-me novamente sozinho, como sempre. Vôo até onde o teto permite, canso e volto. Prefiro dormir e voar até o limite da minha imaginação. Tenho um sonho que estou perdido em uma floresta escura, voando chego em um lago iluminado pela lua cheia. Aí encontro com meu reflexo turvo na água. Sinto que há algo embaixo, mas não sei o que é. Acordo e me dou conta que encerrado em mim mesmo estou preso muito mais nas minhas contradições do que em você. Como você pode ser minha liberdade e minha prisão? E onde estão as chaves para sair?  Volto a dormir sem resposta.

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