I
Manuela subia o elevador
segurando o choro, pronto pra sair. Tinha medo que alguém a visse naquele
estado. Ela não tem vergonha de chorar, mas quando as pessoas não entendem a situação
em que ela está, podem achar que ela é fraca e ela não quer isso. Abre a porta
e seu corpo se perde no espaço da casa, se sente sozinha e cai no chão. Foi uma
queda proposital, ela não aguenta mais fazer esforço pra nada, quer só
descansar e então acaba dormindo. Sonha com o vazio e acorda sentindo o gelado
do piso de madeira. Levanta e vai para o sofá da sala, começando a recordar o
que se passou.
Naquela chuvosa tarde vazia ela
se encontrou com ele, mas não valeu o dia como naquela musica do Ira. Ele
queria acabar aquilo que nem havia começado, queria manter a amizade, mas ela
sabia que isso não era possível. Davi e Manuela estavam se encontrando fazia
alguns poucos meses, mas não era nada sério, afinal, nenhum dos dois queria
esse tipo de relacionamento. Eles ficaram no pilotis do prédio, pois ele tinha
receio de não conseguir falar aquilo pelo qual veio. Não demorou muito para
começarem a falar sobre O assunto, Manuela havia percebido o tom de seriedade
na voz dele ao telefone e não quis perder tempo.
Davi falou sobre como as coisas
estavam meio estranhas entre eles, e que não se sentia mais confortável com a
situação na qual as coisas haviam chegado. Parecia haver uma pressão ou uma
espécie de compromisso invisível entre os dois que estavam deixando as coisas
meio forçadas. De certa forma Manuela entedia a situação, realmente via que as
coisas estavam um pouco mecânicas e quando eles se encontravam parecia que toda
a conversa eram apenas preliminares para o sexo. Não parecia haver outra
intenção, era só sexo. Ou será que não?
As conversas eram muito boas também, eles
filosofavam sobre muitas coisas principalmente sobre arquitetura, que era o
tema favorito de Davi. Assim, apesar do pouco tempo que se conheciam, eles tinham
discussões bem profundas, às vezes, até sobre o tipo de relação que estavam
tendo. Eram curiosos para entender se era possível esse tipo de relacionamento:
sem compromisso e quase sem afeto. Faziam-se perguntas do tipo: “Amor
verdadeiro existe?”, “Existe o amor único ou a monogamia?”, “Existe amor sem
ser afetivo?”. Eram perguntas estranhas, incomuns, porém não conseguiam deixar
de fazer-las, pois eram demais importantes para ambos. Davi parecia ser o que
mais conhecia do assunto, já havia lido e discutido sobre esses temas, sempre os
referindo a um tema mais amplo do qual costumava chamar de “Questões sobre o poliamor”.

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