terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Questões sobre o poliamor


                       I

Manuela subia o elevador segurando o choro, pronto pra sair. Tinha medo que alguém a visse naquele estado. Ela não tem vergonha de chorar, mas quando as pessoas não entendem a situação em que ela está, podem achar que ela é fraca e ela não quer isso. Abre a porta e seu corpo se perde no espaço da casa, se sente sozinha e cai no chão. Foi uma queda proposital, ela não aguenta mais fazer esforço pra nada, quer só descansar e então acaba dormindo. Sonha com o vazio e acorda sentindo o gelado do piso de madeira. Levanta e vai para o sofá da sala, começando a recordar o que se passou.

Naquela chuvosa tarde vazia ela se encontrou com ele, mas não valeu o dia como naquela musica do Ira. Ele queria acabar aquilo que nem havia começado, queria manter a amizade, mas ela sabia que isso não era possível. Davi e Manuela estavam se encontrando fazia alguns poucos meses, mas não era nada sério, afinal, nenhum dos dois queria esse tipo de relacionamento. Eles ficaram no pilotis do prédio, pois ele tinha receio de não conseguir falar aquilo pelo qual veio. Não demorou muito para começarem a falar sobre O assunto, Manuela havia percebido o tom de seriedade na voz dele ao telefone e não quis perder tempo.

Davi falou sobre como as coisas estavam meio estranhas entre eles, e que não se sentia mais confortável com a situação na qual as coisas haviam chegado. Parecia haver uma pressão ou uma espécie de compromisso invisível entre os dois que estavam deixando as coisas meio forçadas. De certa forma Manuela entedia a situação, realmente via que as coisas estavam um pouco mecânicas e quando eles se encontravam parecia que toda a conversa eram apenas preliminares para o sexo. Não parecia haver outra intenção, era só sexo. Ou será que não?

 As conversas eram muito boas também, eles filosofavam sobre muitas coisas principalmente sobre arquitetura, que era o tema favorito de Davi. Assim, apesar do pouco tempo que se conheciam, eles tinham discussões bem profundas, às vezes, até sobre o tipo de relação que estavam tendo. Eram curiosos para entender se era possível esse tipo de relacionamento: sem compromisso e quase sem afeto. Faziam-se perguntas do tipo: “Amor verdadeiro existe?”, “Existe o amor único ou a monogamia?”, “Existe amor sem ser afetivo?”. Eram perguntas estranhas, incomuns, porém não conseguiam deixar de fazer-las, pois eram demais importantes para ambos. Davi parecia ser o que mais conhecia do assunto, já havia lido e discutido sobre esses temas, sempre os referindo a um tema mais amplo do qual costumava chamar de “Questões sobre o poliamor”.

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